H E C T O R L I M A . C O M :: 100 DesContos

10 - July - 2009

100 DesContos #013


A PRINCESA PARASITA

A rocha coberta de limo se fechou atrás do caçador. Vento frio beijando sua pele, quase apagando a tocha - única luz na madrugada no castelo abandonado da realeza. Pousou a bolsa no chão frio ao lado de restos de comida.

No teto, uma forma escura movimentava seu corpo insectóide fingindo indiferença, mexendo nos pêlos negros. Ele furou dedo com um punhal, deixou pingar. O corpo multiarticulado desceu sinuosamente pela parede atrás dele, assoprando pela boca aracnídea próximo a seu pescoço.

E pediu com voz aspirada, de entonação infantil, para ser alimentada. Assim mantinha todos sob jugo sedutor. Ele virou para trás rapidamente, abaixando-se e erguendo o punhal - perfurando o queixo da princesa até chegar ao cérebro.

Das entranhas, conforme a vida se esvaía em gemido agudo, escorreu gosma amarelo-esverdeada com restos de príncipes. E o fim da maldição que assolava um reino até então sem vida.

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100 dEScONTOS - uma série de micro contos de 100 a 200 palavras, sem tema, gênero ou estilo definido. a maioria escrita na hora da publicação. porque eu tava precisando. não vou prometer, mas se chegar a 100 contos vai ser legal.

arquivo dos contos

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25 - January - 2007

100 Descontos #012


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Fim de tarde / começo da noite no Colégio Santa Faculdade. Cheguei com o burburinho dos alunos a caminho das aulas, já começando.

Jalecos brancos, magreza e mochila rabiscada nas costas. O fundão da classe de carteiras desorganizadas e eu na frente, quase no gargarejo do professor, que apagou as luzes e resolveu passar um vídeo na louza. Uma colagem de novelas, jornais, filmes brasileiros dos anos 70 e vídeos educativos de Medicina.

Em dado momento, um jovem casal usuário de crack foi retratado em fotos 3x4 ampliadas: o cara de óculos e terno, ela de vestido com babados. Monstruosos: a pele rosada, dissolvida e grudenta, como de vítimas de queimadura de terceiro grau ou lingüiça frita, efeito do crack que fumavam há anos.

A foto se mexeu e eles saíram dela; ninguém se assustou além da conta, até porque estavam com outra aparência: ele um coroa legal, marcado mas jovial - ela com não mais que 30 anos e ardente.

Cumprimentaram-nos e foram conosco ao cinema ver um filme de guerra. Em que um jovem ia ao Colégio Santa Faculdade assistir a uma vídeo-aula sobre usuários de crack com pele de carne frita.

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24 - January - 2007

100 Descontos #011


PÊ EME Í Ê

Relaxava na praia, o tempo aberto. Uma garota com muitas espinhas na bochecha [eu conhecia?] me dava tchau…

A caminho da Prisão para Mulheres Encarceradas Injustamente, um oficial me conduziu para visitar as labirínticas celas com a direção.

O caminho era passava por uma mini-floresta. Sobre todos os riachos, o militar deixava cair do cantil um líquido negro espesso que se misturava à água e matava uns peixes. No terceiro riacho, os superiores chamaram sua atenção mas ele respondeu que os peixes gostavam daquilo, e os deu de comer direto na boca de desenho animado.

Na PMIE o clima piorava: as detentas sentadas em bancos, sem uniforme e de personalidade forte - como a Cigana, quase uma atriz de cinema. Odiavam os oficiais que as violentavam.

Uma explosão. Buraco no muro. Fuga em massa, com canto e dança. Outras ficaram. Tudo sob o olhar das câmeras que mandavam a imagem para uma senhora na poltrona.

As dententas invadiram a festa black tie no salão de um castelo de torres pontudas, detro do lago no parque de diversões.

Então o diretor, Mr. Américo, feliz em me ver após minha ausência, saiu da biblioteca com alguns volumes e pediu que não acendesse a luz, não funcionaria.

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19 - January - 2007

100 Descontos #010


HORA-FANTASMA

O Garoto Talvez disse:

- Talvez eu volte no fim do dia 15.

E o fez. Filho da puta. Ouvindo o zumbido do motor da geladeira.

- É uma hora boa pra se isolar, soltar o subconsciente como um cachorro há dias sem comer, direto pro prato.

- Mas ultimamente o cachorro anda muito calmo e ordenado, não?

- E por que o dia não começa a ser contado a partir da hora em que amanhece? Poderíamos almoçar às 6 da manhã. Quando acordássemos a hora passaria de 23:59 pra 00:00.

- Acho que faltam duas horas nessa conta…

- Com 16 anos eu estava num aniversário familiar com karaokê. Reclamei tanto que todos resolveram recolher as coisas e ir embora. Me arrependi de estragar a festa dos outros, mas o maior extremo veremos para novos artistas.

Poderíamos ser antenas? Captando sinais de uma realidade cada vez mais estranha? Somos agora o canal mais bizarro de UHF do mundo, o pacote de TV a cabo mais caro. Não adianta consertar agora.

Então a cidade falou comigo por seu neon relutante de brilho fraco. Os órgãos dela funcionando, casa, comida e roupa lavada.

- Falta muito pro agora?

- Não, Garoto Talvez, quase lá. Desliga isso.

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100 Descontos #009


MÃO DE SALMÃO

É noite e ele podia ter se perdido naquelas curvas, ah podia. Em cada centímetro daquela pele bronzeada, daquela penugem loira, os pés bem desenhados, a volúpia calma que não precisa se esforçar. Uma bomba que explode sozinha, sem detonador.

Um detetive de terno desalinhado e chapéu de aba curta anda pela noite. Pensa na garota que teria de achar.

A tosse seca não ia parar com facilidade. Não melhorou com a poeira dos arquivos atrás das fotos dela…

Uma poça respinga água meio cobre. Raspa em seu braço esquerdo e coxa direita. Fura o terno, não é só água. O buraco no braço dói só um pouco. Ele pode ver-se por dentro; carne rosada, como salmão cru.

Pode quase ver seu osso. Onde poderia achar algum remédio para fechar isso? Seria ela peça importante de um plano maior? A poça explodiu, o corpo do detetive derreteu com a água. No reflexo que restou, a garota acena feliz para o espírito do detetive, parado atônito entre os restos de seu corpo.

Primeiro uma mão, depois o corpo inteiro, ele entra na poça. A cidade some atrás e a garota o abraça. Eles atravessam para o outro lado do jogo. Agora para para um novo.

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18 - January - 2007

100 Descontos #008


A ARROGÂNCIA DE BRANCO

Flutuando por longos corredores tão limpos, banhados pela luz fria, que parecem esconder sujeita só entre as paredes. Então você fica preso por barras. Se orgulha do pequeno espaço que não te deixa se espreguiçar porque é o melhor que tem. O lugar onde se fica removido da realidade. Ante-sala dessa vida pra seguinte.

Cheira a Veja Multiuso. Todos os operadores doentes, como pajés que absorvem as impurezas dos corpos de quem tratam. Mas estão pouco se fodendo, à espera de uma situação extrema que resulte em uma vida salva e a sensação de realização completa.

Tive uma vida nas mãos e uma decisão esperta que impediu seu desparecimento deste lugar. mas quem fura as veias finas e estouradas e limpa os excrementos consegue achar espaço pra criar?

O sangue foi espremido da cesariana da mãe pelo feto saindo até meu olho. Falei que era conjuntivite, estou enxergando até melhor. Pros amigos, foi uma briga que resolvi no braço. Eu sou foda!

Vá até a maternidade, que é a ala mais perto daqui. “Pacientes” o tem que ser mesmo, no sentido completo. Não, não vai entrar. Espere te dizerem o que fazer.

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100 Descontos #007


TRAVA DE SEGURANÇA

Os Prisioneiros eram levados de volta às celas de onde tentaram fugir. Os guardas conduziam-nos escada acima pela espiral em direção aos blocos de onde supostamente nunca deveriam ter saído.

Pegos de surpresa pelos Traumoficiais, foram congelados com raios das Pistolas Medo (C) quando chegaram nas extremidades das instalações para saltar em direção… ao nada.

Conforme eram empurrados pelos corredores escuros, os detentos A. C. e A. confabulavam sussurrando como só seria possível escapar libertando o companheiro M. e tomando de assalto a direção do cárcere.

Até descobrirem qual das celas guardava o sujeito teriam de se contentar em ficar trancados nos cantos mais remotos e pouco iluminados do complexo antigo, lá no topo em forma de caveira.

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100 Descontos #006


RASURA NO DIÁRIO DE UM JORNALISTA

Um Vazio Zen me acometeu depois de despejar toletes grandes grossos e fedidos que ficaram dispostos como o algarismo “3″.

A TV me diz que “faltou um pouco de objetividade”. Mas é só o jogo de futebol preso na parede, me olhando ali do alto. Uma calma, um orgasmo nevrálgico anal, como um elo de cânhamo amigável. A coluna já era, eu sabia que aconteceria - senti faz tempo.

Três ou quatro semanas até o fim. Mas ela vai sobreviver, de um jeito diferente. Mude ou morra. Tudo por desleixo de outros caras, meu não.

Fora um capricho do editor, que “se encheu do formato”. A facilidade com que cada pessoa pode hoje montar um b…

tem algo errado no ar. Cheira a coisa molhada começando a estragar. O prenúncio da chuva ou da ilha finalmente afundando. Não sei se ainda creio nisso, mas um poeta já havia dito há mais de 20 anos que merda bóia. Nosso odor pungente é o que nos une; nosso grau socializador maior.

O ocre húmido do ar vem temperado de areia, a parte mais sólida que os habitantes desta pequena prisão cultural são feitos. “Sacos de areia,” ouvi num programa de heavy metal.

É agora que…

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17 - January - 2007

100 Descontos #005


TÔ VÉIA, TÔ CANSADA

Na carteira 10 [prédio 109] do concurso público:

“gostoso / maravilhosos / cheiroso / bundudo / sarado / safado / tesudo”

e na louza: “Marapé. Ass.: I, M, T, D. RDM - pega nóis que eu quero ver”.

3 códigos de barra. qual marca deixa você mais bonita o ano todo?

exceto 80, 100 e 200ml.

- 10 folhas de papelzão pardo
- envelopes grandes
- carta seda
- conc. correio # 1
- dep. cheq. + 150
- extrato
- mega / loto
- 7 de setembro com a Conselheiro

Nada que envolva: criança, mendigo, animal, anão, doente terminal, cocô, xixi, sangue, vômito, machucado, peido, afogamento, sufocamento, fotografia, filmagem, droga e beijo na boca, ok?

Já cansei dissas coisas.

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100 Descontos #004


O CASO DOS QUATRO BRAÇOS

- Um capuccino por favor.
- Pequeno?, a garçonete responde-pergunta, sarcástica ao recolher a xicarazinha da mesa.

Estimulantes mentais socializam. Quando sozinho me ponho a falar muito. Acompanhado, relaxo e minhas sinapses piscam devagar. Meus contatos - mulheromens com barriga de 7 meses - atrasados. Incrível eu chegar antes.

O capuccino é doce, como gostam os cu-lagarto do arquivo de Bill. Ontem ele gerou um pesadelo sobre um duplo caso amoroso que deu triplamente errado: conheci numa rua antiga uma bela morena.

Mas surgiu uma gata balzaquiana de lisos cabelos negros por sobre a pele branca recobrindo as curvas ultramaciass, bunda gigante e mamilos hipersensíveis. Eu gostava de tirar sua roupa social e o sutiã rosado sem graça. Mas me esqueci da outra.

Que descobri ser um cara. Não teria adivinhado. Sua família foi muito ruidosa quanto quando soube.

Maldito fungo do Tio Lee, serve como inseticida. Usei pra eliminar a Aranha-Fantasma. Interessante o timing do alienígena extradimensional: fareja nossas vibrações mais fracas e se esgueira por ângulos inimagináveis, coloca-se como por direito ali. Mescla-se à paisagem em volta da presa.

Não raro está certo. Quando descoberto foge como um bebê-bicha desmascarado com drogas suficientes para puxar uma cana pesada por tráfico.

Ainda estou dentro dele.

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100 Descontos #003


Don’tstop/don’tstoptheband…

dududududummm. Deacon Press presents…

num oferecimento de
*SugarCane*: you got me going now….

:::MADAME ASPARTAME:::

Rewindman! < <
Sempre entregando as fitas a tempo... porque ele assiste ao pacote de fim de semana quantas vezes quiser.

VVVVrrrréeeooouunnn, fez o triturador de cérebros_úteros, incubadoras de idéias-feto vendidas no mercado negro para rituais satanistas ou autópsias, extração de células-tronco [com as pinças usadas na higiene facial]. Recomendados pelos médicos-vampiros, contrabandeados em santos de pau oco.

Estuprando a nave-mãe para que saia seu DNA, afinal todos querem crédito criativo. A contragosto, milhares de "mulheres" dão a luz a memeplexos de carne, Beleza em formação, cartilagem frágil e divina, pelinhos ligados.

Os geradores são mulheres, sempre; acreditam que podem "encontrar sua feminilidade" quando preciso e voltar ao modo "macho sensível", mas são parideiras com clitóris superdesenvolvidos e lábios vaginais entre o escroto e o ânus. Hermafroditas da 5a Dimensão, a ponte entre os contextos, como travestis sagrados de Nova Delhi.

O brilho no metal escovado da mesa aumenta, tomando um lugar maior no campo de visão. Um vórtice? O dedo encosta no reflexo, toca sua contraparte, a versão completamente negativa. Dde cavanhaque, como de costume.

pipipipipi-piiiiiiiii, disse o sismógrafo cardíaco antes de ser desligado. A banda continuou a tocar, e não se ouviu mais nada.

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16 - January - 2007

100 Descontos #002


BANCO DE AREIA

Com o navio seguro pela âncora na baía da arenosa Ilha de São Vinício, o pirata espanhol Barrica abriu um pequeno casco de cerveja do Cavalo de cevada, enquanto descia por um pequeno monte até o templo de rocha do deus Babil onde desenterraria um tesouro escondido por ele e Simonetto, seu colega quando serviam no navio d’el, El Perro del Mar.

Há 2 anos eles haviam enterrado um baú do antigo capitão quando La Luna, a nau de Perro, fora abatida costa pela Marinha Britânica e o fruto de suas pilhagens afundou com Perro junto, ganindo de tristeza conforme o mar Borático enchia o convés.

Escavadas dia adentro revelaram por fim o tesouro e Barrica respirou aliviado, mas engoliu em seco e seu coração parou por um segundo quando a tampa se abriu para revelar não a fortuna em dobrões que ele e Simonetto haviam recebido da Marinha Real por entregar a então futura localização de La Luna - e pela qual havia matado o amigo - mas apenas um punhado de areia e um bilhete que dizia, em soturna escrita de sangue apodrecido, “Ouro por minha vida, ouro por sua Alma, que hei de devorar. - El Perro”.

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100 Descontos #001


NUNCA TEM TEMPO

Já passava da hora de conseguir, mas o piloto batia no teclado cada vez mais rápido. Não conseguia compensar. A cadeira era [do] seu escritório. Que era seu cockpit. Acelerando.

O tremor em volta de si não era quente como o ar subindo no asfalto à tarde, mas as três dimensões se partindo na bolha quântica gerada em torno de si.

Pelos cálculos cada vez mais rápidos. Pra compensar todo. o atraso. da. sua. v.i.d.a. A primeira e última experiência no laboratório Nove.

A bolha se rompeu. Ele estava no outro lado. de dentro e de fora, esquerda e direita, acima e abaixo - vendo todos os reflexos de si mesmo que já haviam passado. E os futuros.

Então ele viu: só ia acontecer se ele quisesse, mas de qualquer forma aconteceria.

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